segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Extinção de Mamíferos Aquáticos

Cientistas mapeiam regiões críticas para mamíferos aquáticos

Golfinhos, baleias e outras espécies de mamíferos aquáticos acabam de ganhar um mapa que pode ajudar a preservar este que é um dos grupos mais ameaçados pelas ações do homem.
Pesquisadores dos EUA e do México fizeram um extenso levantamento com os hábitos, dinâmicas e outras informações de 129 espécies de mamíferos aquáticos e selecionaram 20 locais-chave para sua conservação.
Essas regiões foram selecionadas por sua importância para a preservação de espécies que não podem ser encontradas em outros lugares.
A foz do rio Amazonas, no Brasil, habitat de espécies como o boto-cinza, é um deles. "Esses locais podem servir para a adoção de estratégias para a proteção desses animais", diz o trabalho, publicado na revista "PNAS".
Os cientistas identificaram que o risco é mais elevado em áreas de maior latitude. A vulnerabilidade se intensifica nas ilhas Aleutas, um prolongamento da península do Alasca, e na península Kamchatka, na Sibéria.
Essas regiões já tiveram caça intensiva de focas e baleias. Além da pesca, esses animais são extremamente sensíveis às mudanças em seus ambientes.
Vítimas do aquecimento global, da poluição e até de obras de infraestrutura, 24% das espécies consideras na pesquisa estão ameaçadas de extinção.
O exemplo mais recente é o golfinho baiji (Lipotes vexillifer), da China, declarado extinto em 2008. Além de ter partes de seu corpo usadas na medicina chinesa, a construção de uma hidrelétrica acabou com seu habitat.
O óleo de baleia também é usado na medicina chinesa. A carne do animal é considerada uma iguaria em países como o Japão.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Algas invadem praias francesas da Bretanha.


Algas invadem praias francesas da Bretanha

Problema está pior neste ano; seres emitem gases tóxicos e prejudicam o turismo.

Da BBC
Todos os anos, a região francesa da bretanha sofre com o excesso de algas que se formam no mar e acabam nas praias. Mas em 2011 o problema veio com mais força (assista ao vídeo).
Uma primavera quente, acompanhada de muita chuva, fez com que as algas tóxicas se multiplicassem.
O problema vem afetando o turismo, embora o governo diga que está fazendo todo o possível para contorná-lo.
Especialistas dizem que as algas são causadas pela grande quantidade de fazendas animais próximas ao litoral.



terça-feira, 12 de julho de 2011

Desproteger os ambientes e os povos costeiros: mais uma ‘função’ do novo código florestal, artigo de Riguel F. Contente e Diego Martinez

Desproteger os ambientes e os povos costeiros: mais uma ‘função’ do novo código florestal, artigo de Riguel F. Contente e Diego Martinez

[EcoDebate] As modificações propostas pelo projeto de lei nº 1876/99, o substitutivo do Código Florestal (lei nº 4771/65), incontestavelmente são um precedente legal que permitirá o aumento do desmatamento no nosso país.
Tal iniciativa tem motivado o meio científico nacional e parte da mídia a ressaltar os incontáveis benefícios socioambientais obtidos quando se tem as florestas preservadas nos ambientes terrestres.
Contudo, muito pouco tem sido debatido e esclarecido à respeito dos pontos do substitutivo que poderão trazer à legalidade ações e atividades que afetarão adversamente os ecossistemas costeiros do nosso país.

A zona costeira é o espaço de vida de mais da metade da população mundial e esta situação também ocorre no Brasil. Nossa costa abriga grandes metrópoles brasileiras, bem como atividades urbanas e industriais que contrastam com atividades extrativistas (e.g. pesca artesanal) e agriculturais de subsistência, que ainda são intensas, socioeconomicamente relevantes e persistem em diversas localidades. Neste contexto, o espaço costeiro é marcado pelas contradições entre crescimento econômico acelerado, representado por especulação imobiliária, atividades indústrias e portuárias, e as tentativas de uso ordenado e conservação da biodiversidade para se obter sustentabilidade dos bens e serviços ambientais. Inúmeras unidades de conservação e áreas naturais preservadas na costa brasileira são a ‘casa’ de diversas populações tradicionais. O meio de vida de muitas dessas populações depende diretamente dos ambientes costeiros, bem como da qualidade e adequada gestão dos seus recursos ambientais.
Estuários são corpos d’água costeiros em que há a mistura da água doce proveniente de rios com a água do mar. Possuem excepcional biodiversidade e, portanto, grande relevância para sua conservação e gestão. Tais zonas, devido à diversas particularidades hidrológicas e geomorfológicas, retêm uma quantidade muito grande de nutrientes. Isso favorece a existência de biodiversidade e produção biológica elevadas, o que é prontamente comprovado ao se observar a enorme quantidade de animais que lá vivem.
Manguezais são extensas formações vegetais de planícies litorâneas, formadas por um pequeno número de espécies de plantas halófitas, que são extremamente adaptadas à vida em áreas inundadas pela água salgada. Estas plantas, juntamente com o fitoplâncton, são os principais produtores primários dos estuários e, portanto, responsáveis por essa elevada produtividade biológica.

Com segurança, podemos afirmar embasados em consistentes e inúmeros estudos científicos, que os manguezais são um dos ecossistemas costeiros mais importantes dos trópicos, em termos ecológicos e econômicos, uma vez que têm capacidade de fornecer uma diversa gama de serviços e bens ambientais, dentre os quais se destacam: suporte à biodiversidade e preservação de recursos genéticos ao constituir, devido à alta produtividade, locais de alimentação e reprodução a diversas espécies de aves, peixes, moluscos, crustáceos e alguns mamíferos; manutenção de inúmeros estoques de recursos pesqueiros ao prover habitat a diversas espécies nos seus estágios inicias de vida; proteção e estabilização da linha de costa, atenuando efeitos de tempestades e outros processos com potencial de causar bruscas alterações das feições costeiras; manutenção da qualidade de água, através do processamento de matéria orgânica e nutrientes e retenção de particulados; e controle biológico de espécies vetores de doenças, como mosquitos e outros insetos.

Apesar dos conceitos de bens e serviços ambientais terem sido melhor estabelecidos só recentemente, nosso Código Florestal, promulgado há 46 anos atrás, já reconhecia a importância dos sistemas vegetados, estabelecendo Áreas de Proteção Permanentes (APP), e a Resolução CONAMA nº 303/2002, por sua vez, regulamenta algumas definições do Código Florestal e estabelece que são APPs as áreas “em manguezal, em toda a sua extensão”. No entanto, em uma atitude baseada em interesses que sumariamente desconsideraram qualquer base científica, a câmara dos deputados do congresso nacional aprovou, em ampla maioria, a redação final do substitutivo que retira dos manguezais o status de APP. Remover manguezais interfere negativamente em processos ecológicos, atividades pesqueiras comerciais e de subsistência, além de eliminar todos os serviços ambientais acima mencionados.
Para agravar essa situação, o substitutivo aprovado estimulará a redução da mata ciliar (considerada APP) ao permitir sua supressão em rios com menos de 10 metros de largura após os 15 metros do nível regular do rio. O texto anterior permitia a supressão após os 30 metros do nível mais alto do rio, ou seja, é mais coerente em termos ecológicos por considerar as oscilações naturais do rio e por garantir maior cobertura florestal. Como exaustiva e recorrentemente constatado em incontáveis estudos em todo o mundo, o estado precário de matas ciliares é a principal causa de assoreamento e alteração dramática da qualidade das águas dos rios. Os ecossistemas florestais quando íntegros minimizam a movimentação de sedimentos do solo aos cursos d`água. Assim, rios com matas ciliares reduzidas ou inexistentes provêm aos estuários águas excessivamente turvas que transportam elevada quantidade de sedimento. Esse padrão é típico em bacias hidrográficas com intensa atividade agrícola e baixa cobertura florestal. Essas águas, com tal padrão anômalo, podem causar perda da qualidade dos habitats estuarinos e, portanto, perda de suas funções ecológicas. Tal elevado aporte de sedimento pode alterar a produção biológica nos estuários, afetando sua cadeia trófica através: (i) da geração de águas turvas que reduzem a penetração da luz na água, reduzindo ou mesmo inibindo a produção primária das microalgas e das algas que habitam os fundos estuarinos; e (ii) da redução da oferta alimento aos juvenis de peixes e crustáceos e às aves marinhas, por conta do assoreamento ou até mesmo supressão de habitats, como canais rasos de maré, planícies de marés e o leito principal do estuário, que são ecologicamente críticos por abrigarem elevada abundância alimento (i.e. invertebrados que vivem associados ao substrato). Vale destacar que o efeito sinérgico do desmatamento nos inúmeros rios de pequeno porte que existem uma bacia hidrográfica poderá resultar num impacto muito significativo nos estuários que recebem suas águas.
Cabe ressaltar também que a persistência no suprimento de água doce, garantida por matas ciliares íntegras e conservação das nascentes, faz com que o estuário tenha gradiente de salinidade, ou seja, zonas com menor salinidade mais próximas aos rios e zonas com maior salinidade mais próximas do mar. Muitas espécies estuarinas têm preferências claras por cada zona do estuário e a perda de tal persistência no suprimento de água pode ocasionar redução de uma zona e, portanto redução de habitat. Por exemplo, o Robalo-peva (Centropomus parallelus), um peixe estuarino altamente visado pela pesca esportiva e comercial, passa seus estágios iniciais de vida em zonas de baixa salinidade dos estuários. Uma potencial redução no suprimento de água doce aos estuários poderá reduzir a área ‘berçário’ dessa espécie e, consequentemente, reduzir as populações adultas e afetar a produção pesqueira.
Outra problemática do substitutivo aprovado é declarar, expressamente (parágrafo 3º do artigo 4º), que os apicuns não são APP. Apicuns são planícies hipersalinas de transição entre os ecossistemas terrestres e os manguezais; são reconhecidamente vitais para a manutenção dos manguezais, sendo que alguns especialistas já os incluem como parte integrante dos manguezais. Esta falta de proteção explícita abre espaço para a eliminação destes habitats principalmente pela carcinocultura extensiva, que cresce no país (em especial na região nordeste) e que tradicionalmente se instala nessas áreas. Esta atividade não só suprime mangues como também normalmente não adota práticas eficientes de controle da qualidade hídrica, comprometendo a saúde dos manguezais e das águas costeiras adjacentes.
Para não dizer que o substitutivo não cita os manguezais, este ecossistema aparece no artigo 8º, que trata da intervenção e supressão vegetal, consta que nas restingas estabilizadoras de mangues, a supressão “poderá ser autorizada excepcionalmente em locais onde a função ecológica do manguezal esteja comprometida, para execução de obras habitacionais e de urbanização, inseridas em projetos de regularização fundiária de interesse social, em áreas urbanas consolidadas ocupadas por população de baixa renda.” No entanto, os parâmetros para definir um manguezal como ecologicamente comprometido são ainda controversos, senão prematuros. Sabe-se que os manguezais possuem alta capacidade de recuperação. Além disso, o replantio para o restabelecimento do ecossistema tem se mostrado muito eficiente. Alegar “função ecológica comprometida” é um argumento fraco e inconsistente que serve apenas para justificar a supressão de mangues impactados, argumento que alguns de nós já se cansaram de ouvir durante discussões conflituosas de tentativas de zoneamentos e ordenamento do uso do solo. Além disso, é fato que no litoral brasileiro encontramos diversas ocupações irregulares em áreas de manguezal, formando favelas sobre palafitas. Porém, seria mais sensato que essas populações pudessem ser realocadas dos manguezais, que são áreas relativamente inóspitas para a habitação humana, para áreas mais apropriadas. Conclui-se que este ponto do substitutivo não só desconsidera os valores ecológicos dos manguezais, como também os definem como um lugar para abrigar pessoas socialmente desfavorecidas, resultando numa lei quase que preconceituosa.
O aumento da produção agropecuária é um dos principais argumentos utilizados para justificar as modificações do Código. De fato, o relatório da Avaliação Ecossistêmica do Milênio da UNESCO coloca que o aumento na produção de alimentos nas últimas décadas foi essencial para atender à demanda de uma população mundial em crescimento, evitando, em termos globais, um quadro de desnutrição pior do que o que se observa hoje em dia. No entanto, o mesmo relatório expõe os altos custos que os ecossistemas e a sociedade pagaram por adotar o modelo agrobusiness de produção. Estima-se que mais de 60% dos serviços ecossistêmicos no mundo já estejam degradados. Em termos regionais, se observa aumentos do nível de pobreza, indicativo de que esse modelo de agronegócio, ao desconsiderar a integridade funcional dos ecossistemas nos seus processos produtivos, agrava as desigualdades sociais. Isso ocorre porque as populações mais pobres são as mais dependentes dos serviços ambientais e, logo, as mais despreparadas a lidarem com a perda desses serviços.
Na zona costeira brasileira, um grande número de pessoas dependem diretamente da pesca e atividades extrativistas. O pescador artesanal, o catador de caranguejo, o pequeno maricultor são pessoas com baixa renda e baixa escolaridade, cujo sustento é diretamente condicionado à conservação dos estuários, manguezais, apicuns. Essas pessoas também sofrem as consequencias da exclusão social e possuem reduzidíssimo poder de influência sobre as políticas do governo. Ao permitir que esses ambientes sejam degradados, o novo código florestal poderá prejudicá-los ou mesmo impossibilitá-los de exercerem seus ofícios e assim amplificará as assimetrias de poder e de desigualdades na dimensão social através da degradação na dimensão ambiental.
Continuamos avançando na identificação e descrição dos processos ecológicos estruturadores dos ecossistemas estuarinos, de suas conexões com ambientes adjacentes e de sua importância econômica à sociedade, através da valoração dos seus serviços ambientais. Esses avanços no conhecimento só vêm reafirmando a importância destes ambientes a sociedade. Entretanto, a grande maioria dos nossos legisladores não está alinhada a essa visão, fato comprovado pela aprovação do substitutivo por ampla maioria. O substitutivo desconsiderou o conhecimento científico, bem como o contexto social, ao carregar o potencial de agravar as persistentes injustiças sociais na nossa zona costeira. Sua aprovação no congresso foi uma clara demonstração à sociedade brasileira de imposição de um processo de tomada de decisão completamente retrógrado e inaceitável para os dias atuais.
A possibilidade de reduzir a integridade ecológica dos estuários via supressão de manguezais e redução das matas ciliares por meios legais é uma atitude que não está alinhada às políticas ambientais estabelecidas pelo governo, como a Política Nacional do Meio Ambiente, e que, acima de tudo, fere a constituição federal, porque não zela pelo nosso patrimônio natural e porque uma parcela grande dos brasileiros habitantes da zona costeira não terão um “meio (em que vivem) ecologicamente equilibrado,(…) essencial à sadia qualidade de vida” como preconiza o artigo 225 da CF.

Diego Martinez, biólogo, mestrando, trabalha com populações tradicionais no sistema estuarino de Cananéia-Iguape
Riguel F. Contente, Biólogo, doutorando em Oceanografia Biológica, Laboratório de Ecologia Reprodutiva – LABER, Instituto Oceanográfico, USP

EcoDebate, 12/07/2011
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quarta-feira, 6 de julho de 2011


Cientistas completam genoma de recife de corais na Austrália
Equipe analisou a espécie 'Acropora millepora'.
Feito pode ajudar nos esforços de preservação.

Cientistas da Austrália completaram o sequenciamento do genoma dos corais da espécie Acropora millepora, uma das principais da Grande Barreira de Corais, do país. O feito vai ajudar a preservar um dos principais pontos turísticos do país, ameaçado pelo aquecimento global e pela poluição.

Ao contrário do que muitos pensam, os corais são animais, não plantas. A Grande Barreira é o maior e mais preservado sistema do mundo, atraindo milhares de mergulhadores todos os anos.

Segundo um dos pesquisadores, David Miller, o DNA da espécie se mostrou bastante complexo, com tantos genes quanto um ser humano.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Biólogo captura beleza da vida marinha em águas russas

22/06/2011 - BBC Brasil

O biólogo russo Alexander Semenov transformou em livro as imagens que ele e seus colegas produziram durante quatro anos de estudos da vida marinha na Estação Biológica do Mar Branco, centro de pesquisas no noroeste da Rússia.
As imagens de Semenov foram feitas em uma região gélida e inóspita, que passa a metade do ano congelada. Ainda assim, as criaturas marinhas fotografadas por ele são ricas em cores.
Ele relata que algumas das criaturas são comuns em diversos lugares do mundo; outras, porém, foram vistas por alguns poucos especialistas até hoje.
A espécie favorita dele é o molusco Coryphella polaris, uma lesma que vive a 30 metros [de profundidade] no escuro e em águas geladas. "É tão bonito", disse ele ao site TreeHugger.
O livro de Semenov já foi lançado na Rússia e agora está sendo traduzido para o inglês.
Veja fotos no link:

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Projeto Temático no BIOTA-FAPESP faz levantamento sobre crustáceos de dez patas no litoral do Estado de São Paulo para montar um catálogo com a técnica do DNA barcoding (Pachycheles riisei – foto Leonardo Pileggi)


Agência FAPESP – Estima-se que existam mais de 17 mil espécies de crustáceos com dez patas, ou decápodes, entre eles os camarões, siris, lagostas, ermitões e caranguejos. Desse grupo, calcula-se que há mais de 600 ocorrentes na costa brasileira. Para o litoral de São Paulo, são conhecidas somente cerca de 350 espécies.
Com o objetivo de aumentar o inventário no litoral paulista, começou no início de 2011 o Projeto Temático “Crustáceos decápodes: multidisciplinaridade na caracterização da biodiversidade marinha do Estado de São Paulo”, realizado no âmbito do Programa BIOTA-FAPESP.
“Nos próximos cinco anos, esperamos aumentar em cerca de 20% o número de espécies conhecidas de decápodes”, disse o coordenador do projeto, Fernando Luis Medina Mantelatto, professor titular do Departamento de Biologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo (FFCLRP-USP).
A semente do projeto surgiu em 2001 quando Mantelatto fez um pós-doutorado em filogenia molecular nos Estados Unidos. A partir daí veio a ideia de aplicar esse conhecimento na solução de problemas taxonômicos entre os crustáceos decápodes, seu foco de estudo.
O segundo passo foi dado com a criação do Laboratório de Bioecologia e Sistemática de Crustáceos da USP em Ribeirão Preto. Tanto o pós-doutorado como o laboratório receberam apoio da FAPESP.
Foi preciso ainda outros dois impulsos importantes, o aprimoramento da biologia molecular e o advento da técnica de código de barras do DNA, ou DNA barcoding.
Depois, foi uma questão de unir esses elementos em torno de um objetivo relevante: conhecer a fauna de crustáceos decápodes que habitam o litoral de São Paulo e mapeá-los geneticamente.
“Há muitas espécies com relevância taxonômica e papel-chave na evolução de alguns grupos, além de outras com grande importância comercial, como os camarões branco, rosa e sete barbas”, disse Mantelatto.
Somente na primeira expedição, os pesquisadores detectaram diferenças populacionais marcantes nessas espécies em relação às áreas de ocorrência no litoral paulista, além de cinco espécies de decápodes ainda não registradas.
“Essa grande biodiversidade do litoral paulista se deve ao fato de se tratar de uma zona de transição faunística com representantes de águas tropicais e águas frias”, disse.
Nos primeiros dois anos do projeto o esforço será o de reunir uma coletânea de espécies de regiões de todo o litoral, o que inclui amostragens em manguezais, praias, costões, ilhas e até áreas de maior profundidade.
Expedições periódicas com cerca de 20 pesquisadores e alunos de diferentes níveis percorrerão essas áreas e coletarão os animais, acondicionando-os em gelo ou álcool 80%, medidas necessárias para a análise molecular.
“Nesse esforço, serão realizadas coletas manuais, com armadilhas, por meio de barcos de arrasto, mergulhos livres ou com equipamento autônomo. Além das coletas, visitas a diferentes instituições e museus do Brasil e do exterior estão previstas para a identificação das espécies”, contou Mantelatto.
Uma vez no laboratório, as espécies serão identificadas e o DNA será extraído da musculatura e sequenciado para formar o código de barras de cada espécie. Esse código será depositado em um banco de dados que reúne genes de espécies do mundo todo, o GenBank, mantido pelo National Center for Biotechnology Information, nos Estados Unidos.
Vertentes da biologia molecular
Uma das grandes contribuições desse projeto, de acordo com Mantelatto, será o de estabelecer o status taxonômico de espécies crípticas, que reúne indivíduos de morfologia praticamente idêntica, mas distinta em aspectos genéticos e larvais. “Com isso, podemos desmembrar alguns dos chamados ‘complexos de espécies’ em uma ou em várias espécies”, disse.
Com o projeto principal, ocorrerão em paralelo dois subprojetos. Um deles envolve a ecologia populacional e a genética populacional. Será feito um levantamento por estimativa das populações mais recorrentes no litoral e também daquelas espécies que sejam de relevância econômica para a região. Esses dados poderão contribuir para a sustentabilidade da pesca.
O outro subprojeto focará a espermeotaxonomia das espécies de grande relevância taxonômica e/ou econômica. Essa é uma ferramenta importante para a diferenciação entre espécies, além de fornecer subsídios para medir a capacidade reprodutiva dos animais.
“Com os subprojetos, esse trabalho de pesquisa reúne três vertentes da biologia: taxonomia molecular, ecológica e reprodutiva”, disse o professor da USP, frisando o caráter multidisciplinar do Projeto Temático.
Além de Mantelatto, estão envolvidos professores da Unesp dos campi de Assis, Bauru e Jaboticabal e outros dez pesquisadores do Brasil e do exterior, de instituições da Alemanha, Chile, Costa Rica, Espanha, México e Estados Unidos.
Também atuam no Temático diversos bolsistas FAPESP em diferentes níveis (Iniciação Científica, Mestrado, Doutorado, Pós-Doutorado e TreinamentoTécnico).
“A natureza multi e interdisciplinar do projeto trará uma relevante contribuição para o conhecimento dessa fauna marinha de São Paulo, para a preservação da biodiversidade do Estado e para o consequente aumento da visibilidade desse conhecimento no cenário nacional e internacional”, disse Mantelatto.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Cientistas induzem célula a emitir raio laser - proteína de água-viva.

Cientistas americanos induziram uma célula a produzir luz laser, diz um artigo publicado na revista científica Nature Photonics.

A técnica se baseia em uma célula que foi programada geneticamente para produzir uma proteína - encontrada naturalmente em uma espécie de água-viva - capaz de emitir luz.
Quando a célula é iluminada com uma tênue luz azul, passa a emitir luz laser verde direcionada.
O trabalho pode ter aplicações na geração de imagens microscópicas de qualidade superior e também em tratamentos médicos que utilizam luzes.
A luz laser se diferencia da luz normal porque ela tem um espectro mais reduzido de cores, como ondas de luz que oscilam juntas, em sincronia.
As formas mais modernas de laser utilizam materiais sólidos construídos cuidadosamente para produzir lasers usados em diversos aparelhos eletrônicos, entre eles, escaneadores de supermercados, tocadores de DVDs e robôs industriais.
Avanço
O trabalho dos cientistas Malte Gather e Seok Hyun Yun, do Wellman Center for Photomedicine do Massachusetts General Hospital, nos Estados Unidos, estabelece um precedente importante: esta é a primeira vez que um organismo vivo produz a luz laser.
A dupla usou uma proteína verde fluorescente (Green Fluorescent Protein, ou GFP, na sigla em inglês) como um meio de ganho, para a amplificação da luz.
Objeto de muitos estudos, a molécula GFP - encontrada originariamente em uma espécie de água-viva - revolucionou a biologia ao agir como uma "lanterna" que pode iluminar sistemas vivos.
Gather e Yun programaram células do rim humano para produzir GFP.
Banhadas em Luz
As células foram colocadas, uma de cada vez, entre dois minúsculos espelhos com 20 milionésimos de um metro de comprimento.
Os espelhos funcionaram como uma "cavidade laser" na qual raios de luz foram refletidos múltiplas vezes, banhando a célula.
Quando a célula foi exposta à luz azul, passou a emitir luz verde intensa e direcionada.
As células continuaram vivas durante e depois do experimento.
Em uma entrevista que acompanha o artigo na Nature Photonics, os cientistas observaram que o sistema vivo é "auto-regenerativor". Ou seja, se as proteínas que emitem luz são destruídas no processo, a célula simplesmente produz mais proteínas.
"Em terapias baseadas em luz, diagnóstico e geração de imagens, as pessoas procuram formas de transportar luz emitida por uma fonte externa de laser para um ponto profundo no interior do tecido."
"Agora, podemos abordar o problema de outra forma: amplificando a luz no (próprio) tecido".

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Cientistas brasileiros criam antibiótico com ouriço-do-mar

O estudo mostrou que uma proteína presente no ouriço-do-mar eliminou com maior eficiência as bactérias que causam infecções intestinais, renais e pulmonares. [Imagem: MCT]

Ouriçando as infecções
Cientistas da Universidade Católica de Brasília (UCB) descobriram no ouriço-do-mar uma substância com a qual pretendem desenvolver um antibiótico para ajudar no combate às infecções hospitalares.
Os estudos, que ainda estão em andamento, mostram que uma proteína presente nos animais eliminou com maior eficiência as bactérias Escherichia coli, Salmonella, Proteus e Klebsiella, que causam infecções intestinais, renais e pulmonares.
Antibiótico natural
Cientistas da Universidade Católica de Brasília (UCB) descobriram no ouriço
Há 15 anos trabalhando com antibióticos, o pesquisador Octávio Franco do Centro de Ciências Genômicas e Biotecnologia da UCB, coordena dois projetos que buscam o controle dessas doenças por meio de compostos extraídos de animais marinhos.
No início dos estudos foram analisadas cerca de 30 espécies de invertebrados, mas foi o ouriço-do-mar que se mostrou mais eficiente.
"Foi um sucesso porque descobrimos uma coisa nova num organismo tipicamente nacional e que funciona muito bem; além de ser totalmente natural", comemora o pesquisador.
Antibióticos alternativos
O Centro de Ciências Genômicas trabalha com uma série de antibióticos e detém cinco patentes. Seu foco é encontrar princípios ativos alternativos aos convencionais, em geral fungos e bactérias.
Franco explica que, com o passar do tempo, as bactérias causadoras de infecção hospitalar tornam-se resistentes aos medicamentos convencionais, e "desta forma é preciso buscar outras fontes de fármacos", diz.
Segundo ele, o que despertou o interesse do grupo por animais marinhos foi a capacidade deles de se adaptarem muito bem a ambientes extremamente agressivos e competitivos, cheios de microorganismos.
"Então, basicamente os escolhendo pela alta capacidade de resistência a agressividade ambiental que enfrentam. Acabamos usando deles o que a natureza levou milhões de anos para desenvolver", diz Franco.
Cidade sem mar
Os cientistas da UCB, que trabalham em rede com grupos da Bahia, Inglaterra, Estados Unidos, Austrália e Cuba, receberam exemplares de diversas espécies da costa brasileira e do Caribe para as pesquisa.
Essa articulação foi necessária, diz Franco, porque Brasília está muito longe da faixa litorânea. O trabalho cooperativo permite economia com o deslocamento de uma grande equipe e na infraestrutura para a coleta marinha.
Burocracia que entrava a ciência
O pesquisador conta que o antibiótico se mostrou eficaz em laboratório e que aguarda o desenrolar do processo de patenteamento. Franco diz, que, além da falta de experiência com a burocracia nos trâmites para essa finalidade a equipe ainda tem que enfrentar outras questões para prosseguir com os testes clínicos.
"Encontramos muitas dificuldades hoje no País para fazer com que um fármaco aconteça. É muita burocracia a ser enfrentada e isso atrapalha muito", desabafa. Em sua opinião, "é muito mais fácil se descobrir um antibiótico do que colocá-lo no mercado", critica o cientista.
Franco diz que "é extremamente frustrante saber que temos uma série de compostos estudados e que grande parte deles, não se transformará em benefício real à população", lamenta.
Interesse nos lucros
Ainda de acordo com o professor, atrair o interesse de empresas multinacionais produtoras de fármacos é "realmente problemático", pois elas geralmente trabalham com a perspectiva de alto lucro "e não se interessam em investir em medicamentos que trarão retorno apenas razoável, como antibióticos".
De qualquer maneira ele diz que não se pode parar com as pesquisas. Para ele, um dos meios de se vencer parte desse entrave "é o governo, além dos estudos, investir também nas empresas, principalmente as de pequeno porte que atuam no ramo da produção de medicamentos".
Consumo de antibióticos
Estudo divulgado no mês passado pela Revista Panamericana de Saúde Pública aponta que entre 1997 e 2007 aumentou em 10% o consumo médio de antibióticos nos oito países de maior mercado farmacêutico da América Latina. Os autores do levantamento analisaram indicadores de venda de antibióticos com e sem prescrição médica em farmácias, clínicas privadas e hospitais da Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, México, Peru, Uruguai e Venezuela.
Como parâmetro eles usaram a Dose Diária Definida (DDD) por mil habitantes. Isso significa que 10 pessoas em cada grupo de mil consomem uma dose diária de antibiótico. Indica o levantamento que enquanto em 1997 o consumo promédio foi de 10,92 DDD, em 2007 se elevou para 11,99 DDD, o equivalente a um aumento de 9,8%.
Em 1997, o consumo mais alto de antibiótico foi registrado no México (15,69 DDD), seguido da Argentina (14,37), Chile (14,07), Colômbia (12,17) e Venezuela (11,18). O menor uso foi registrado no Peru (7,91), Brasil (6,51) e Uruguai (5,43).
Dez anos depois a lista é encabeçada pela Argentina (16,64), seguida da Venezuela (15,99), Peru (13,50), México (13,26) e Chile (12,53). O consumo mais baixo foi registrado no Brasil (7,01), Colômbia (8,07) e Uruguai (8,9).

terça-feira, 7 de junho de 2011

Cientistas anunciam plano para proteger carbono azul

Cientistas anunciam plano para proteger carbono azul
Ação urgente é necessária para desacelerar as emissões de carbono causadas pela destruição e degradação dos ecossistemas marinhos, que armazenam até 50 vezes mais carbono do que florestas.

A destruição dos ecossistemas costeiros como manguezais, brejos e terrenos alagadiços à beira-mar, que armazenam grande quantidade de carbono, está liberando grandes quantidades de dióxido de carbono (CO2) no oceano e na atmosfera, de acordo com o Grupo de Trabalho Internacional para Carbono Azul Costeiro.
O grupo, formado por 32 cientistas de 11 países, revelou em reunião em Paris que o conhecimento existente sobre estoques de carbono e emissões causadas pela degradação ou conversão de ecossistemas costeiros é “suficiente para justificar ações imediatas de melhoria do manejo desses ecossistemas”.
O Grupo de Trabalho foi criado como um passo inicial no avanço das metas científicas, políticas e de manejo da Iniciativa Carbono Azul, cujos membros fundadores incluem a Conservação Internacional (CI), a União Mundial para a Conservação da Natureza (IUCN, da sigla em inglês), e a Comissão Intergovernamental Oceanográfica (IOC) da UNESCO.
Apelidado de “carbono azul” por sua habilidade de seqüestrar e armazenar grandes quantidades de carbono, tanto nas plantas quanto nas camadas mais profundas do solo, esses ecossistemas marinhos podem conter até cinco vezes mais carbono do que em florestas tropicais. Em algumas áreas eles contêm até 50 vezes mais carbono do que em algumas áreas de florestas.
“Há algum tempo já sabemos da importância dos ecossistemas costeiros para a pescaria e a proteção contra tempestades e tsunamis. Agora estamos vendo que, se destruídos ou degradados, esses ecossistemas costeiros se tornam grandes emissores de CO2, e essa emissão é feita de forma lenta, por muitos anos. Em outras palavras, é como uma hemorragia longa e lenta, difícil de estancar. Então, precisamos urgentemente interromper a perda desses ecossistemas ricos em estoque de carbono para desacelerar as mudanças climáticas”, afirma Emily Pidgeon, diretora do Programa Marinho de Mudanças Climáticas da Conservação Internacional.
A drenagem de terrenos alagadiços à beira-mar, como manguezais e brejos, libera um quarto de milhão de toneladas de CO2 por quilômetro quadrado de solo perdido. Dados globais mostram que brejos e manguezais estão sendo degradados ao longo das regiões litorâneas de todo o mundo a um ritmo acelerado. Entre 1980 e 2005, 35 mil quilômetros quadrados de manguezais foram destruídos globalmente – uma área do tamanho da Bélgica. Essa área ainda continua a liberar até 0.175 giga-toneladas de CO2 a cada ano – equivalente às emissões anuais de países como a Holanda ou a Venezuela.
“Estudos científicos têm demonstrado que, apesar de alguns manguezais, terrenos alagadiços e brejos representarem menos de 1% da biomassa total das plantas em terra, neles circulam quase a mesma quantidade de carbono que nos 99% restantes. Dessa forma, o declínio desses ecossistemas tão eficientes em estocar carbono é uma causa válida de preocupação”, alerta Wendy Watson-Wright, diretor da IOC.

No decorrer de reuniões em Paris, cientistas apresentaram as prioridades e recomendações para ações imediatas, que incluem:

• Intensificação nas pesquisas nacionais e internacionais, tais como desenvolvimento de metodologias de inventário e contabilidade para carbono costeiro; realização de inventários de carbono; realização de pesquisa e monitoração para quantificar com mais precisão as emissões de gases de efeito estufa causados pela perda de ecossistemas costeiros; e o estabelecimento de rede de demonstrações em campo para aumentar a capacitação e colaboração de comunidades.

• Melhoria do manejo local e regional: tais como identificar e reduzir as principais causas da degradação de sistemas costeiros ricos em carbono – entre elas o desenvolvimento urbano, a agricultura, a aquicultura, a poluição, a drenagem e a introdução de construções artificiais –, o reforço das políticas de proteção de sistemas costeiros ricos em carbono e a restauração de sistemas perdido-degradados.

• Maior reconhecimento internacional dos ecossistemas costeiros ricos em carbono: por meio de entidades internacionais estabelecidas tais como o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas das Nações Unidas (IPCC) e a Convenção-Quadro das Nações Unidas Sobre Mudança do Clima (UNFCCC).

Os cientistas enfatizaram que a melhoria no manejo de ecossistemas costeiros não visa a se tornar um bloqueio para o desenvolvimento dos países, e sim uma estratégia para priorizar a conservação de zonas costeiras específicas, únicas, de alto potencial para estocar CO2. Eles recomendam que os tomadores de decisão reconheçam mais os serviços vitais que essas áreas oferecem à humanidade e priorizem sua proteção.
“A capacidade das zonas costeiras de reduzir a mudança climática ao capturar e armazenar CO2 é considerável, mas tem sido ignorada”, declara Jerker Tamelander, gerente de Oceanos e de Mudança Climática da IUCN. “Se valorizados e geridos adequadamente, os ecossistemas costeiros podem ajudar muitos países a cumprir com suas metas de mitigação ao mesmo tempo em que ajudam com a adaptação em áreas costeiras vulneráveis.”
O grupo de trabalho se reunirá novamente em agosto e continuará seu estudo científico colaborativo. A Fundação Waterloo, a NASA e o Programa Ambiental das Nações Unidas (Pnuma) financiaram os trabalhos do grupo.
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Para ler todas as recomendações dos cientistas, visite: http://bit.ly/gJoT7k
Imagens disponíveis mediante solicitação
Para solicitações de entrevistas e mais informações:
Gabriela Michelotti – gerente de comunicação da Conservação Internacional
Tel. +55 61 3226-2491 g.michelotti@conservation.org
Kim McCabe, diretora de comunicação da Conservação Internacional
Tel. +1 703-341-2546; kmccabe@conservation.org
Borjana Pervan, assessor de imprensa da IUCN; t +41 22 999 0115, borjana.pervan@iucn.org
Agnes Bardon, assessor de imprensa da UNESCO
Tel. +33 (0)1 45 68 17 64, a.bardon@unesco.org

terça-feira, 31 de maio de 2011

Espanha: Pescadores podem ajudar a limpar o mar do plástico


Moisés Erades Sart, líder da associação de pescadores de Xabia (Alicante),
não tem dúvidas. Ele é um firme defensor de que as embarcações de arraste ou artesanais também possam recolher os plásticos e o lixo que são abundantes entre os cabos Santo António e La Nao, uma encruzilhada de travessias náuticas no Mediterrâneo oriental.
Os pescadores de Xabia, cerca de cem, reuniram-se há alguns dias e deram pleno apoio à idéia dada recentemente pela comissária de Pesca da União Européia, Maria Damanaki. Ela sugeriu que os barcos de pesca também capturem os plásticos e dejetos que ameaçam a vida marinha. Bruxelas quer que, nas épocas de inatividade (nos períodos de proibição), os pescadores sejam encarregados de limpar o mar dos resíduos e levá-los para reciclar. Reportagem de Antonio Cerrillo, La Vanguardia.
“A idéia da comissária de Pesca nos parece muito boa, porque nos ajudaria a enfrentar a crise econômica”, explica Moisés Erades, que se estende ao relatar a série de dejetos que costuma encontrar ao tirar suas redes de pesca da água. “Perto da costa, na primeira linha do mar, encontra-se de tudo; mas, mar adentro também é comum encontrar plásticos, latas e até galões, porque estamos numa rota muito transitada, tanto pelos navios mercantes como pelo turismo náutico”, afirma.
Erades e seus companheiros de Alicante pescam merluza, salmonete e polvo, mas também mariscos, camarão e lagostim. E não é estranho que, em algumas ocasiões, algumas redes tenham de ser jogadas fora ao emergirem cheias de piche ou graxa.
O ponto de vista da comissária européia conta com o apoio incondicional de muitos pescadores andaluzes, que consideram que assim será possível consolidar o intervalo biológico, muito necessário para recuperar o estoque pesqueiro super-explorado. “Dessa forma, os lugares de pesca poderão descansar, o que facilitaria a reprodução e nos renderia um salário”, disse María del Carmen Navas Guerrero, líder da associação de pescadores de Vélez-Málaga.
A super-exploração afeta os barcos de arraste (polvo, pacamão, camarões, sibas) e de cerco (sardinhas, boqueirões), até o ponto em que a associação fixou limites próprios “para dar trégua às espécies e fazer com que tenham mais valor”.
O mesmo apoio é expresso por Eusebi Esgleas, presidente da Federação Catalã de Associações de Pescadores, para quem a proposta comunitária permitiria “cuidar do meio ambiente e ao mesmo tempo ajudar os pescadores”. “As pequenas embarcações de pesca artesanais podem ser uma boa solução para ter praias limpas no verão, agora que as lixeiras deixaram de funcionar”, afirma.
Na opinião de Esgleas, as subvenções que receberão não devem ser para compensar o recolhimento de plásticos, algo que já fazem de forma habitual e rotineira quando fazem a seleção da pesca, mas para pagar pela limpeza de áreas marinhas extensas e bem delimitadas onde o lixo se concentra (plásticos, dejetos, além de troncos e outros detritos) arrastados pelas correntes que eles conhecem tão bem.
“A medida nos parece muito acertada e, além disso, equilibraria a economia do setor pesqueiro”, diz Miquel Illa, chefe da associação de pescadores de Vilanova i la Geltrú. Illa acha necessário limpar além da primeira linha marítima. “Há plásticos por toda parte. Inclusive nas áreas mais profundas, onde pescamos camarões”, diz ele.
Em Vilanova e La Geltrú há 230 pescadores e 76 barcos. Entretanto, a iniciativa de Bruxelas não foi acolhida exatamente com alvoroço pelo Ministério do Meio Ambiente e Meio Rural e Marinho. A secretaria geral do mar realizará reuniões com as organizações de pescadores, onde a questão será abordada “a partir do diálogo e o consenso com o setor pesqueiro”, afirma um porta-voz ministerial.
Neste ponto, o governo não dará um passo sem o consentimento dos pescadores. “O governo espanhol não se define claramente sobre esta idéia, porque ainda não ficou claro de onde sairá o dinheiro”, diz Moisés Erades. Os fundos europeus de pesca prevêem subvenções para ações coletivas dos pescadores se forem de interesse social geral. E, de fato, a secretaria geral do mar já colocou em andamento em 2009, na Galícia, um projeto (em colaboração com o Centro Tecnológico do Mar da Galícia) para estudar o reaproveitamento dos resíduos sólidos (não só plásticos) que forem recuperados do mar e nos trabalhos da pesca.
Para poder avançar mais nessa linha, o passo seguinte deveria ser detectar as áreas com uma acumulação de resíduo mais intensa, segundo indica a secretária geral do mar. Mercè Sanmartí, diretora de Pesca da Generalitat, mostra-se cética com o propósito da comissária européia: e, ainda que admita os benefícios iniciais desse projeto, diz que não foi demonstrada a relação entre custo e eficácia. “Estamos em crise, e deve-se avaliar previamente se o custo de sair recolhendo plástico no mar não será muito grande, tendo em vista o alto preço do combustível, do diesel e do trabalho”, afirma.
A atividade exigiria instalar contêineres nos portos e facilitar as medidas para entregar e reciclar os plásticos. O Greenpeace rejeitou sem rodeios a pesca de lixo por entender que ela confunde dois problemas que deveriam ter soluções diferenciadas. “Para começar, os plásticos não deveriam ficar no mar. Mas, além disso, o que é preciso fazer é uma boa gestão da pesca, mais social e sustentável. Os pescadores não podem se dedicar à gestão dos resíduos, mas sim a fazer uma pesca responsável”, disse Celia Ojeda, porta-voz da organização.
As iniciativas para ampliar o horizonte da atividade pesqueira são várias. A França colocou em andamento em 2008 os contratos azuis, com os quais subvencionaram ações para recolher utensílios de pesca perdidos e outros resíduos em colaboração com os pescadores. Na Espanha, introduziram-se planos para fomentar o ecoturismo de pesca. Alguns pescadores oferecem a possibilidade de passar um dia no mar e conhecer a vida marinha e seus costumes. Entretanto, as medidas estritas de segurança no mar exigidas pelo Ministério de Fomento bloquearam por enquanto a sua implantação, dizem os pescadores.
O que contamina os mares?
1. Plataformas e navios petroleiros
As plataformas petroleiras e os grandes navios que transportam o petróleo são um dos focos de contaminação dos mares. O golfo do México é a região do mundo onde houve mais vazamentos de barcos e plataformas. O Mediterrâneo está em terceiro lugar na lista, atrás do noroeste dos EUA, mas à frente do Golfo Pérsico e do mar do Norte.
2. Águas residuais
Mais de 35 municípios espanhóis estão muito atrasados no tratamento das águas residuais, que são jogadas com muita contaminação no mar, segundo uma condenação recente do Tribunal de Luxemburgo contra a Espanha. Entre outras regiões, sobressaem-se Estepona, Barbate, Alhaurín el Grande, Chipiona, Nerja, Tarifa, Gijón-Este, Llanes, Ceuta, Noia, Benicarló, Arenys de Mar, Pineda de Mar, Elx, Vinaròs, A Coruña, Vigo, Peñiscola, Bayona, Santiago Hondarribia.
3.Vertedores no mar
O mar recebe a cada dia cerca de 7.100 toneladas de petróleo e derivados procedentes dos vertedores de resíduos de veículos e indústrias que chegam ao mar através do esgoto.
4.Barcos de recreio
Derramam centenas de toneladas de resíduos. Os navios são obrigados a entregar seus resíduos oleosos em instalações de recepção autorizadas no porto.
Tradução: Eloise De Vylder
Reportagem de La Vanguardia.
Fonte: EcoDebate, 31/05/2011
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